
A descoberta de drogas para o tratamento
Em 1949 o psiquiatra australiano
John Cadê observou que o lítio produzia um quadro de sedação
quando administrados em cobaias. Cadê desconhecia, na época,
que tal efeito era decorrente de efeitos tóxicos do lítio,
e propôs que essa substância podia ser útil para o tratamento
de distúrbios maníacos. Ele tratou, com sucesso,
alguns pacientes com esse quadro. No entanto, como os efeitos de lítio
eram pouco compreendidos, ausência de eficácia e/ou quadros
tóxicos eram freqüentes. Foram necessários os esforços
de Mogens Schou, no fim da década de 1950, para demonstrar a eficácia
no lítio por meio de estudos clínicos controlados.
Por volta do início da década
de 1950, observou-se que pacientes tuberculosos tratados com a iproniazida
apresentavam melhora do humor, Pouco tempo depois foi descoberto que esta
droga, além de tubercolostática, também inibe a enzima
monoaminoxidase (MAO). Nessa mesma época foi observado que o efeito
de letargia e retardo psicomotor provocado pela reserpina era revestido
para um estado de hiperatividade em ratos, quando estes eram pré-tratados
com a iproniazida. Com isso, o psiquiatra norte-americano Nathan Kline
sugeriu que essa droga poderia apresentar efeitos antidrepessivos ou funcionar
como um “energizante psiquico”. Em 1957 Kline e outros colaboradores foram
capazes de demonstrar esse efeito em paciente deprimidos.
A imipramina sintetizada em 1948,
apresentando uma estrutura química similar à da clorpromazina.
Em meados de 1950, com a descoberta das propriedades antipsicóticas
da clorpromazina, foi testado, sem sucesso, a eventual eficácia
da imipramina no tratamento da esquizofrenia. No entanto, o psiquiatra
suíço Roland Kuhn observou que pacientes esquizofrênicos
com sintomas depressivos melhoravam de humor, e sugeriu, que a imipramina
teria efeitos antidepressivos. Esse mesmo pesquisador realizou, algum tempo
depois, alguns anos depois, o primeiro de vários ensaios clínicos
controlados que demonstravam esse efeito. Assim surgiram as drogas mais
empregadas neste grupo, os antidepressivos tricíclicos e seus derivados.
Mais recentemente, a partir da década de 1980, novos compostos,
como efeitos mais seletivos, porém semelhantes aos inibidores da
MAO e dos antidepressivos tricíclicos, surgiram e vêm sendo
cada vez mais empregados.
Classificação dos medicamentos
empregados no tratamento
Antidepressivos tricíclicos: é
o grupo mais antigo de drogas, apresentando estrutura cíclica e
efeitos farmacológicos semelhantes.
? Antidepressivos de segunda geração:
grupo de drogas introduzidas mais recentemente na clínica , heterogêneo
de estrutura efeitos farmacológicos. Incluem compostos como inibidores
de recaptação de serotonina ou noradrenalina ou ambas.
? Inibidores da MAO
? Estabilizantes do humor: representadas
pelo lítio. Outras drogas são também empregadas com
essa função, como carbamazepina e ácido valproíco.
Efeitos farmacológicos dos antidepressivos
tricíclicos e de segunda geração
Possuem capacidade de bloquear a recaptação
neuronal de noradrenalina e serotonina.Eles costumam atuar em algum ponto
da via de síntese, transmissão, e recaptação
dos neurostransmissores. Além do bloqueio de receptores, que colaboram
para as complicações decorrente do uso dessas drogas.
O efeito terapêutico dessas drogas
precisam de administração continuada por pelo menos de quatro
a seis semanas antes de se tornarem evidentes.Muitos desses compostos apresentam
metabolismo de primeira passagem, o que faz com que sua biodisponibilidade
diminua. Todos eles passam por biotransformações no
fígado, o que pode resultar em metabólitos ativos, aparecendo
efeitos farmacológicos tanto terapêuticos como adversos.
Embora as drogas da segunda geração
sejam mais bem toleradas, elas não estão isentas de efeitos
colaterais.
Efeitos farmacológicos dos inibidores
de MAO
A monoaminoxidase é uma enzima
que transforma catecolaminas em aldeídos, e localiza-se principalmente
na manbrana externa da mitocôndrias. A MAO atua preferencialmente
sobre neurotransmissor recaptado e ainda está livre no citoplasma.Sua
eficácia é muito semelhante a das dos outros antideprssivos.
Efeitos farmacológicos dos estabilizadores
de humor
O lítio é o principal
representante deste grupo. Estudos controlados sugerem que é eficaz
no tratamento de episódicos maníacos e na prevenção
da recorrência de crises maníacas ou depressivas em pacientes
bipolares. O lítio pode, ainda, ser útil em pacientes
refratários ao tratamento com antidepressivo, quando combinado
com este último.
Outras condições para
as quais o tratamento lítio foi preconizado incluem certas formas
de esquizofrenia, alcoolismo, instabilidade emocional, agressividade e
neutropenia. No entanto, elas não foram até o momento embasadas
em estudos controlados.
Alternativas ao emprego de lítio
são dois anticonvulsivantes, a carbamazepina e o ácido valpróico.
Estudos clínicos sugerem que ambos são tão eficazes
quanto a lítio no tratamento da crise aguda da mania. Embora
seja possível que também apresentem efeito na profilaxia
dessas crises, faltam ainda estudos controlados que sustentem essa indicação.
O mesmo vale para o tratamento de episódio depressivo em pacientes
bipolares.
Sugeriu-se, ainda, que compostos
como a clonidina ( agonista alfa-2-adrenérgico ) e o verapamil (
bloqueador de canais de cálcio ) poderiam ter efeito anti-maníaco.
Efeitos farmacológicos e mecanismo
de ação do lítio
O lítio é um metal alcalino
encontrado com relativa abundância na natureza. Está presente
em concentrações mínimas no organismo, e não
possui nenhum papel fisiológico conhecido.
Seus efeitos farmacológicos
são inúmeros, e embora centenas de trabalhos sejam publicados,
seu mecanismo de ação permanece em sua maior parte desconhecido.
Além dos efeitos terapêuticos,
75% dos pacientes tratados com lítio podem apresentar algum tipo
de efeito adverso. Felizmente, e maior parte das reações
de pequena gravidade. Entre os efeitos relacionados à dose estão
a poliúria, polidipsia, ganho de peso, dificuldade de concentração
e memória, tremor, sedação, problemas de coordenação,
distúrbios gastrointestinais, perda de cabelos, leucocitose benigna,
acne e edema. Também foram relatadas alterações eletrocardiográficas
e hipotireoidismo.
Pacientes com nível plasmático
acima de 1,5 mEq/l, podem apresentar sinais de intoxicação.
Níveis acima de 2,5 mEq/l, podem produzir convulsões, coma
e por fim a morte. Assim deve se preocupar muito com a dosagem de lítio
a ser usada.
Mecanismo de Ação de Lítio
Grande número de efeitos
farmacológicos desencadeado dificulta uma explicação
aceitável para seus efeitos de estabilizador do humor. Existem
varias possibilidades entre elas alterações nas vias monoaminérgicas.
Drogas que facilitam a neurotransmissão
dopaminérgica podem produzir sintomas maníacos, e anti-psicóticos
apresentam efeitos terapêuticos em crises maníacas. O lítio
bloqueia em animais de laboratório, o desenvolvimento de sinais
comportamentais de supersensibilidade de receptores dopaminérgicos.
Com base nisso, sugeriu-se que o efeito anti-maníaco do lítio
poderia envolver uma atenuação da neurotransmissão
dopaminérgica. O lítio pode diminuir a taxa de renovação
da dopamina por facilitarem a transmissão GABAérgica. A administração
crônica de lítio produz diversas alterações
nos sistemas serotonérgico e noradrenérgico, que lembram
aquelas que acompanham o tratamento prolongado com drogas anti-depressivas.
Por diferentes mecanismos, que incluem o aumento de captação
do precursor da serotonina, o aminoácido triptofano, e
a diminuição da atividade de receptores serotonérgicos
pré-sinápticos inibitórios, o lítio aumenta
a liberação de serotonina, particularmente no hipocampo.
Ele também aumenta, em humanos, respostas neuroendócrinas
a agonistas seratonérgicos.
Embora os efeitos nessas monoaminas
possam estar relacionados aos efeitos em crises de mania e depressão
em pacientes bipolares, e no caso da serotonina e da noradrenalina em pacientes
depressivos, elas não explicam a estabilização do
humor em pacientes bipolares. Existem varias alternativas para isso, envolvendo
particularmente a possibilidade de interação de lítio
com sistemasa de segundos mensageiros. O lítio inibe o aumento da
adenilato ciclase produzidas em determinados neurotrnsmissores, levando
a diminuição do AMPc. Embora essa relação ainda
seja especulativa, o diminuição de AMPc parece ser responsável
por alguns efeitos adversos da droga.
Outro sistema de segundo mensageiro
afetado pelo lítio é o que envolve o metabolismo do fosfoinisitol.
O lítio inibe a hidrólise dessa substancia, com conseqüente
diminuição da concentração cerebral de inositol.
Assim o lítio interfere no sistema do fosfatidilinositol, por atenuar
a mediação, através de proteínas G, da transmição
de sinal gerado a partir do receptor. Considerando que a proteína
G, desempenham papel chave para mediação de sinais para inúmeros
neurotransmissores, alguns autores têm sugerido que isso poderia
explicar o efeito estabilizador do humor de lítio.
Outras possibilidades sugeridas
são os efeitos sobre a cinética e distribuição
dos íons através de membranas celulares, em razão
da similaridade do lítio e dos outro cátions alcalinos, como
o sódio, cálcio, potássio e magnésio.
Finalmente, a necessidade de tratamento
por dias ou semanas para o aparecimento dos efeitos do lítio, sugere
o envolvimento de alterações genômicas.
Farmacocinética do Lítio
O lítio é usado terapeuticamente
em pequenas dosagens, o que leva a necessidade de monitoramento de seu
nível sérico. É apresentada sob a forma de carbonato
de lítio e tem uma meia vida de 14 a 30 horas, sendo administrado
via oral.
Em relação ao distúrbio
bipolar, o lítio é a droga de escolha para o tratamento agudo
da crise maníaca e na prevenção de ocorrências
tanto crises maníacas como depressivas. Antipsicóticos e
antidepressivos podem ser empregadas quando existe a necessidade de rápido
alívio dos sintomas.